Teoria Monetária Austríaca

           


   
Para se entender melhor a “Teoria Monetária Austríaca”, devemos retomar nosso estudo de Carl Menger, o pai da Escola Austríaca. A sua definição fundamental sobre a teoria é “dinheiro é o bem mais vendável”, ou seja, aquilo que possui o maior valor de troca dentro de uma estrutura social que se baseia no livre-mercado. Ele expressa essa definição em “A Origem do Dinheiro” (1871), iniciando o estudo da moeda dentro dessa escola.

               Enquanto isso, o pai da “Teoria Monetária Austríaca” é Ludwig Von Mises, desenvolvendo-a em seu livro “The Theory of Money and Credit” (1912), tendo feito primordial de conseguir aplicar de forma consistente a teoria da utilidade marginal na demanda por dinheiro ou “o preço do dinheiro”. Nesse momento a teoria monetária se separa da teoria geral da economia dentro da Escola Austríaca.

               Em seu livro, Mises aplica o individualismo metodológico, foi esse método que possibilitou explicar o dinheiro e seu poder de compra. Mises utiliza argumentos originais, mais nem todos são de sua autoria.

               “As considerações agregadas levam inevitavelmente ao erro, pois a correta análise causal deve ter como ponto de partida as escolhas dos indivíduos” – Mises

 

Trocas Diretas e Indiretas

 

               No sistema de trocas diretas você consegue realizar a troca de um item por outro, pois existe uma coincidência de desejos entre os negociantes. Enquanto no sistema de trocas Indiretas há um empecilho e alguma das partes não deseja fazer a troca, por exemplo, se eu sou João e produzo trigo, mas meu desejo é ter o peixe como alimento eu vou em busca de quem o tem. Se o pescador não tiver interesse em meu trigo, mas tiver interesse em milho acabo sendo obrigado a buscar alguém que produz milho e deseja meu trigo só para que eu consiga o peixe que tanto desejo.

               Nesse sentido o bem que possui a maior demanda é àquele com maior liquidez. O ouro que era utilizado com meio de troca na Grécia antiga não passou a ser utilizado como moeda de troca por uma imposição estatal ou convenção generalizada, mas porque as pessoas perceberam que era um bem valorizado e começaram a aceitar em suas trocas não para utilizá-lo na produção de ferramentas e acessórias, mas porque sabiam que alguém iria aceitar quando oferecessem em alguma troca futura. Dessa forma o dinheiro é o bem que possui a maior liquidez.

 

Bens de Consumo, Bens de Produção e Moeda

 

               Enquanto existem alguns bens de consumo direto e outros utilizados como meio de produção, o dinheiro é utilizado não para consumo ou produção, ele é utilizado para adquiri-los (intercâmbio de bens). Desse fato decorre o insight fundamental que até mesmo David Ricardo havia descoberto: o aumento de bens de consumo e produção na economia eleva o padrão de vida, enquanto o aumento de dinheiro não gera benefício econômico. Uma sociedade não possui necessidade de aumento da oferta monetária.

               Todavia, os efeitos de dobrar a oferta monetária em um momento para o outro não é instantâneo. Se todos os cidadãos tivessem um aumento espontâneo de 20% de seus caixas podemos afirmar que não saberíamos seus efeitos inflacionários pela convergência de interesses, mas saberíamos que a inflação de preços ocorreria.

               Nesse sentido podemos explicar o Efeito Cantillon, onde se beneficia aquele que obtém o dinheiro primeiro, por exemplo, se o governo deseja ampliar o tráfego na região nordeste por meio da melhoria da infraestrutura, mas para ter recursos para isso ele decide imprimir o dinheiro. A empresa contratada terá o benefício de receber o “dinheiro novo”, ou seja, aquele dinheiro não circulou no livre-mercado, os efeitos inflacionários ainda não são visíveis, até ele ser utilizado para pagar salários ou comprar novos materiais, conforme ele vai sendo inserido os efeitos vão aparecendo, com mais dinheiro na economia a demanda aumenta, se há uma estagnação da produção a consequência é o aumento de preços e conforme o dinheiro vai se espalhando na cadeia esse efeito se amplia, mas aqueles que não tiveram o “dinheiro novo” sofrem das consequências sem os benefícios de beneficiar-se dos preços que anteriormente vigoravam.

Preço do Dinheiro ou Poder de Compra do Dinheiro

    “Valorizamos um bem pela sua utilidade, mas o dinheiro é valorizado pelo seu poder de compra ou utilidade de troca” – Mises

               A dificuldade em elaborar uma teoria monetária por meio da utilidade marginal foi quebrada quando Mises conseguiu elaborar o Ciclo Austríaco. Essa teoria diz que o poder de compra da moeda só existe através da demanda exercida por ela, ou seja, só é possível comprar um pão com dinheiro pois o padeiro deseja o dinheiro. Ao mesmo tempo a demanda só existe porque o dinheiro tem poder de compra, o padeiro só deseja dinheiro porque ele quer utilizá-lo na troca de outros bens.

               Quando o dinheiro surge? Essa pergunta exige a explicação do porquê o ouro ganhou valor como moeda de troca, a partir do momento em que as pessoas perceberam que muitas pessoas desejam ouro ele passou a ter um determinado poder de compra, ao mesmo tempo surgiu uma demanda muito grande por ele, ou seja, ambos surgiram concomitantemente, sendo uma característica dependente da outra, se uma some a outra irá também.

               O Teorema da Regressão serve para explicar o ciclo austríaco. A demanda por moeda só existe pois no dia de ontem ele havia um poder de compra, a confiança estabelece que esse valor perdure no dia de hoje. No dia de ontem ele possuía demanda pois no dia anterior ele possuía valor, regredindo a cada dia até chegar quando ele se torna uma moeda como o ouro.

               Dentro do livro Mises também exalta duas categorias que podem ser mencionadas. Cataláctica: a teoria que exalta o livre-mercado, o valor dos bens existe através das milhões de trocas espontâneas realizadas e o possível surgimento de uma moeda. Acataláctica: são aqueles que ignoram o processo de mercado e acreditam que o valor da moeda emana apenas do Estado ou do soberano.

 

Implicações da Teoria Monetária da Escola Austríaca

 

  • O dinheiro é uma mercadoria e surge no livre mercado;
  • Inflação é o aumento da quantidade de dinheiro;
  • Não há nenhuma necessidade de X% de aumento de preços para dar conta de uma economia em crescimento;
  • Governos inflacionam para benefício próprio;
  • Inflação é uma das maiores causas da redistribuição de riquezas numa sociedade;
  • Não há nenhuma necessidade de um banco central para gerir a quantidade de dinheiro numa economia, além de seu mandato ser simplesmente impossível;